

retrato · 29 anos · skatista · cuidadora
Daniela Ramírez Hernández
“O skate me abriu a mente e o coração para eu abrir portas para outras coisas.”
Daniela Ramírez Hernández
Daniela é uma mulher de 29 anos que estudou Cuidados em Saúde e Etno-história. Nasceu no município de Valle de Chalco Solidaridad, no Hospital Geral “Dr. Fernando Quiroz”. Aos 14 anos conheceu o skate, que lhe “abriu a mente e o coração”.
Ela vê a gente de Valle de Chalco como pessoas muito diversas, já que algumas nasceram aqui e outras chegaram pela migração. O que lhe agrada é que, quando todas essas pessoas se unem, dá para conquistar coisas; mas é a violência que provoca a divisão entre todos. Infelizmente ela sofreu agressões verbais e assédio por parte da polícia; numa ocasião disse a eles que davam medo, que em vez de sentirmos que nos protegiam, dava muito medo vê-los.
A violência, a polícia, a apatia, o desinteresse pelos problemas coletivos são algumas coisas de que ela não gosta em Valle de Chalco; o que ela gosta é quando as pessoas se unem e se apoiam. Também se entusiasma com a história do seu município e, por isso, com o Museo Comunitario del Valle de Xico e a coleção arqueológica que ele guarda — em especial as “figurinhas tipo Xico”, com traços femininos, o que para ela demonstra o respeito à mulher, à fertilidade e à natureza que existia no passado.
a entrevista
Trechos da entrevista gravada, traduzidos do espanhol. A fala foi condensada, nunca corrigida.
Por que você anda de skate?
Ando de skate porque desde os 14 anos eu sentia uma sensação de vazio, mas com vontade de fazer alguma coisa. Aí conheci o skate e ele me abriu as portas — mais que tudo, me abriu a mente e o coração para eu mesma abrir portas para outras coisas. E é um esporte muito bonito, porque a gente aprende a se agarrar ao que quer, mesmo caindo ou se machucando.
Como é a gente de Valle de Chalco?
A gente de Valle de Chalco é mega diversa e multidiversa, porque muita gente daqui é migrante e outras nasceram aqui. Sinto que somos boa gente: se a gente quiser, consegue se unir. Mas ao mesmo tempo existe uma desigualdade muito feia, muito drástica, principalmente pela violência, que é o que gera essa divisão e essa desigualdade.
Você já teve algum problema com a polícia?
Com a polícia, sim: mais do que o roubo de algo material, me agrediram verbalmente e tentaram assédio sexual. O que eu fiz? Na hora senti muito medo, fisicamente me senti mal. E disse a eles que davam medo: que em vez de sentirmos que nos protegiam, dava muito medo vê-los.
O que você não gosta aqui?
A violência, a polícia, a apatia das pessoas e a divisão — até a divisão entre as colonias do município. Porque existem problemas, o da água por exemplo, e tem colonias que estão há uma semana com água e dizem: bom, agora não me importa o problema da outra colonia, porque eu já tenho água. Esse é um problema muito grande aqui: apatia e desinteresse pelos problemas coletivos.
E do que você gosta?
Que, se a gente se entendesse e compreendesse os problemas sociais de forma coletiva… porque as pessoas se unem, sim, já se viu união, apoio. Estamos todos de saco cheio, cansados. Mas tem que ficar falando e falando, insistindo. Então o que eu gosto é que existe gente unida, muito, muito bacana, gente muito letrada que se preocupa com os problemas. Isso também eu gosto.
Você conhece o Museo Comunitario? Tem alguma peça preferida?
Sim — o Museo Comunitario para mim é muito importante, porque é justamente o que eu gosto em Valle de Chalco: ele nos ensinou que Valle de Chalco tem muitíssima história, desde a pré-história; tem quase todas as classificações da história que já se deram. Desde pequena ele me abriu as portas; tem coleções maravilhosas que as pessoas doaram para poderem ser exibidas e para todas nós conhecermos. Isso é o mais importante. E minha peça favorita é a figurinha tipo Xico, porque o nome já diz, foi encontrada muitas vezes aqui. Tem características muito importantes, poderíamos dizer traços femininos — como outras figurinhas conhecidas como cebollonas, que também são femininas. E isso é muito massa, porque nos diz que aqui em Valle de Chalco já existia esse respeito à mulher, à fertilidade, à natureza.
Mais alguma coisa que você queira acrescentar?
Convido todo mundo a lutar. Estamos passando por crises muito fortes, em que precisamos repensar muitas coisas, começar a trabalhar em coletivo mesmo tendo problemas individuais. Talvez a gente não vá com a cara de certa pessoa, mas infelizmente o amor e o respeito ao outro precisam ganhar desse rancor e desse ódio, e isso dá trabalho; não é fácil, não se fala tão fácil, mas é preciso trabalhar, leva um processo.
Entrevista realizada pelas e pelos participantes da oficina, 2025.
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sete moradores
Zulay Ikarani Amaro Jasso15 anos · estudante do ensino médio
María Dolores Martínez Rangel50 anos · dona de casa · corista
Cecilia del Sagrario Losa Arreaga34 anos · comerciante
José Rivera Mendoza53 anos no município · motorista de mototáxi
Adrián Alvaradofundador, treinador e presidente do Rugby Mictlán
Luz Andrea Quiroz Hernándezartesã · tear de cintura · falante de mixteco
parceiros
Museo Comunitario del Valle de Xico
Arte y Cultura Xico A.C.
mOst — mon œil sur terre
créditos
fotografias e textos dos e das participantes das oficinas — Valle de Chalco Solidaridad, 2024–2025.
más allá de las calles