

retrato · 50 anos · dona de casa · corista
María Dolores Martínez Rangel
“Cheguei com 7 anos, em 1982. Aqui era um vale desértico: sem água, sem luz, sem parques.”
María Dolores Martínez Rangel
É uma senhora que hoje se dedica aos afazeres da casa; no tempo livre, canta no coro da igreja, e cantar é a sua paixão. Também é muito religiosa: não só vai ao coro como vai à missa dois dias por semana.
Não é só cantar no coro que ela ama: ela aproveita a companhia das suas três filhas, das quais tem imenso orgulho. Outro passatempo é ver novelas no celular, porque assim aproveita melhor enquanto faz as atividades da casa. Sem dúvida, uma grande pessoa.
a entrevista
Trechos da entrevista gravada, traduzidos do espanhol. A fala foi condensada, nunca corrigida.
Há quanto tempo a senhora mora aqui no Valle?
Moro aqui há 43 anos, cheguei com 7 anos, em 1982. Antes eu morava na colonia Valle Gómez. Viemos para cá porque meu pai comprou um terreninho: lá onde a gente morava a casa era só emprestada.
Como era Valle de Chalco quando vocês chegaram?
Houve muitas mudanças, porque no começo a gente não se acostumava com o clima; não tínhamos aqui os benefícios que tínhamos lá no distrito, que hoje se chama Cidade do México. Não tínhamos essas coisas: água, luz. Lá a gente saía para brincar nos parques. Quando chegamos aqui não tinha nada disso. Era um vale, digamos, desértico: sem água, sem luz, sem parques. As escolas eram terrenos baldios onde colocavam uns barracões e era ali que a gente estudava.
E como vocês faziam a lição de casa?
Antes, com os livros didáticos que davam na escola, porque não tínhamos bibliotecas; só bem depois fizeram uma, a que fica aqui na chamada hacienda velha. Fizeram a biblioteca e mandavam a gente pesquisar. E a lição a gente fazia com velas, porque não tinha luz. A gente se iluminava com velas.
O que ainda falta, na sua opinião?
O transporte. Com tantas obras agora, o trânsito… Seria mais viável ter mais linhas, mais rápidas, para chegar ao centro da Cidade do México. E que as passagens não fossem tão caras: pesa na economia, porque muitas vezes a gente vive do dia a dia, e agora que as passagens estão aumentando, isso é uma desvantagem.
E o trabalho? Por que as pessoas vão trabalhar na Cidade do México?
Porque lá, do meu jeito de pensar, os salários são mais altos que aqui no Valle. E aqui faltam fábricas ou algo assim, para a pessoa não ter que sair tanto para a Cidade do México atrás de trabalho. E os patrões muitas vezes não consideram o tempo das pessoas: às vezes você chega atrasada e dizem que não tem mais direito de trabalhar porque chegou tarde. O que eles não consideram é o trajeto. Do jeito que está o trânsito, o que se pode fazer?
E a segurança, na sua rua?
Onde eu moro tem um posto policial, umas quadras, e ali muitas vezes tem gente que vive de roubar. Tem gente que sai de casa às 4 da manhã e infelizmente são essas que sofrem a insegurança, porque dá medo passar por ali: é um ponto de assalto, ou saem as motos e já te pegam. A gente chama a viatura e às vezes ela nunca chega, ou chega bem depois.
Alguma vez a senhora precisou intervir?
Uma vez a gente precisou ajudar uma moça que passava e começou a gritar porque estava sendo assaltada, ali fora de casa. Foi umas 11 da noite, ouvimos uma moça gritando por ajuda. Graças a Deus ainda estávamos acordados. Saímos, olhamos e vimos que uma pessoa estava atacando ela; entre uns sobrinhos meus e outros vizinhos a gente saiu e, querendo ou não, meus sobrinhos tiraram o cara de cima dela e a ajudaram. Mas a viatura nunca chegou. Meus vizinhos e meus sobrinhos a levaram até a casa dela.
Dá para contar com os vizinhos?
Eu digo que é fazendo a gestão, mas também com a ajuda dos vizinhos. Só que os vizinhos muitas vezes não se interessam. E é em vão dizer a eles: sabe de uma coisa, vamos nos unir para pedir vigilância. Aí dizem, não, eu não tenho tempo, meu trabalho não deixa. Colocam muitos “mas” nessas questões, e eu acho que isso também está errado. Depois, quando as coisas acontecem: ai, se a gente tivesse feito… Mas aí, para quê?
E a convivência familiar, o que mudou?
A internet tirou a convivência, porque antes a gente convivia em família. Jogava loteria, os jogos de tabuleiro que tinha antes, o jogo do ganso, ou saía na rua, brincava de esconde-esconde, mas em família. A gente fazia brincadeiras, conversava em família. Não tinha esse “estou aqui no celular e não te escuto”. Hoje cada um está no seu mundo. A única vez que a gente se reúne é quando tem uma festa, e é bonito porque estamos convivendo em família: meus irmãos, meus pais enquanto os tenho, meus sobrinhos, minhas filhas. É bonito, de verdade, muito bonito.
O que a senhora mudaria aqui no Valle?
Eu gostaria que houvesse um posto de saúde mais perto do meu bairro, porque o que eu vou fica um pouco longe. Isso é o que eu mudaria aqui. E também a falta de medicamento, tanto nos hospitais quanto no posto: ontem mesmo fui à consulta e não me deram meu remédio porque não tinha.
Entrevista realizada por Santiago Israel Amaya Martínez, novembro de 2025.
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sete moradores
Zulay Ikarani Amaro Jasso15 anos · estudante do ensino médio
Cecilia del Sagrario Losa Arreaga34 anos · comerciante
José Rivera Mendoza53 anos no município · motorista de mototáxi
Daniela Ramírez Hernández29 anos · skatista · cuidadora
Adrián Alvaradofundador, treinador e presidente do Rugby Mictlán
Luz Andrea Quiroz Hernándezartesã · tear de cintura · falante de mixteco
parceiros
Museo Comunitario del Valle de Xico
Arte y Cultura Xico A.C.
mOst — mon œil sur terre
créditos
fotografias e textos dos e das participantes das oficinas — Valle de Chalco Solidaridad, 2024–2025.
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